Desafios da Terapia | Envolva o paciente

DESAFIOS DA TERAPIA | ENVOLVA O PACIENTE

Nesta coluna trazemos um capítulo do livro “Desafios da Terapia: reflexões para a nova geração de pacientes e terapeutas” do médico, psicoterapeuta e escritor Irvin D. Yalom. Depois do texto, você poderá conferir as reflexões da Maria Fernanda, enquanto estudante de Psicologia, e do Rafa Dutra, enquanto psicólogo clínico, professor e supervisor. Aproveitem!


Muitos de nossos pacientes têm conflitos no domínio da intimidade e são ajudados na terapia simplesmente por meio de um relacionamento íntimo com o terapeuta. Alguns temem a intimidade porque acreditam que há algo inaceitável neles, algo repugnante e imperdoável.

Diante disso, o ato de revelar-se por completo a outro e ainda assim ser aceito pode ser o principal veículo de ajuda terapêutica. Outros podem evitar a intimidade por medo de exploração, colonização ou abandono; para eles, também, uma relação terapêutica íntima e carinhosa que não resulte na catástrofe esperada torna-se uma experiência emocional corretiva.

Portanto, nada tem precedência sobre o cuidado e a manutenção do meu relacionamento com o paciente, e eu presto atenção a cada nuance de como nos avaliamos um ao outro. O paciente parece distante hoje?

Competitivo? Desatento aos meus comentários? Ele faz uso do que eu digo em particular, mas se recusa a reconhecer minha ajuda? É excessivamente respeitoso? Obsequioso? Expressa muito raramente qualquer objeção ou desacordo? Está distante ou suspeitoso? Consigo entrar em seus sonhos ou devaneios? Quais são as palavras que usa em conversas imaginárias comigo? Quero saber todas essas coisas e muito mais.

Nunca deixo passar uma sessão sem verificar nosso relacionamento, às vezes com simples perguntas: “Como você e eu estamos hoje?” ou “O que está achando do espaço entre nós hoje?”.

Às vezes, peço ao paciente que se projete no futuro: “Imagine daqui a meia hora – você está voltando para casa, relembrando nossa sessão. Como você se sentirá sobre você e eu hoje? Quais serão as declarações não ditas ou perguntas não feitas sobre nosso relacionamento hoje?”.


Maria Fernanda |
Estudante de Psicologia

Estudante do 7º semestre do curso de Psicologia da USCS – Universidade de São Caetano do Sul, Maria se interessa pela Clínica em Psicologia e vem se inspirando pelas discussões da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.

Um dos maiores desafios na psicoterapia (para mim, pelo menos rs) é mostrar as suas sombras que você já conhece, e ao longo da análise descobrir algumas novas sombras. Causa um desconforto natural. Aliás, fazer psicoterapia é quase sempre um desconforto constante. 

É um processo a criação da intimidade e desse vínculo terapêutico, principalmente se for a primeira vez fazendo psicoterapia. A gente costuma vestir máscaras ao longo da vida, e entender que na psicoterapia é importante se desfazer de algumas máscaras é desconfortável mesmo. E doloroso muitas vezes. 

A preocupação do profissional da Psicologia em se questionar e questionar o paciente sobre o vínculo é importante principalmente pensando nessas máscaras vestidas.

A intimidade é uma construção baseada na transferência, no tempo, na identificação e também na energia investida nesse processo. E um vínculo terapêutico bem fortalecido contribui para que o paciente se sinta seguro o suficiente para entrar em contato com partes de si que muitas vezes passaram anos sendo evitadas, negadas ou escondidas. E isso não acontece de uma vez. É uma construção gradual, feita entre avanços, resistências, silêncios e descobertas.

O vínculo terapêutico precisa ser pensado com cuidado e sensibilidade, porque é justamente nessa relação que o paciente pode experimentar novas formas de existir e de se relacionar.


Rafa Dutra |
Psicólogo Clínico e Professor

Psicólogo, especialista em Psicologia Clínica, em Psicologia Escolar e mestre em Educação. Atua como psicoterapeuta desde 2008 em consultório particular a partir da Psicologia Sócio-Histórica. É, também, professor e supervisor.

Construir vínculo e intimidade é sempre um desafio, sejam nas relações pessoais, sejam nas profissionais. E com a relação terapêutica não é diferente!

Esta é uma relação muito singular que não se reproduz em nenhum outro contexto que não o da terapia, essa relação psicóloga-paciente é única e é o nosso principal “instrumento” de trabalho. Mediamos um processo em que construímos uma intimidade que é de via única e que para além das tantas reflexões, escutas, provocações, insights e acolhimentos, se torna ela própria – a relação – uma intervenção na vida da paciente.

Envolver o paciente pode parecer algo óbvio e simples, mas o óbvio precisa ser dito e o simples às vezes é bem difícil de executar. Sobretudo nos dias de hoje com as tantas cobranças por resultados e por pessoas cada vez mais adoecidas e com dificuldades de entrar, de fato, em contato com as próprias questões.

É na relação que o processo acontece e é preciso cuidar com muito apreço dela, sem romantizar nem idealizar ser a “super-psicóloga”, mas uma relação atenta, profissional, pautada na ética do cuidado e construída no detalhe a cada encontro. Este cuidado é conjunto, com a participação ativa das pacientes, caso contrário, deslocamos o eixo da relação para a psicóloga, e daí as coisas podem sair do caminho que deveriam estar.

A relação não é padronizada e nem está dada, não é porque conseguimos construí-la uma vez que deixaremos de nos preocupar. Ela sempre se reconfigura e exige novos alinhamentos e posicionamentos, é uma relação viva, em movimento, com encontros e desencontros, atravessada por diferentes afetos, frágil e potente, como toda e qualquer intimidade, por isso mesmo precisa ser cuidada!

Devo ter um perfil nas redes sociais?

DEVO TER UM PERFIL NAS REDES SOCIAIS?

É muito comum o pessoal se formar e construir um perfil nas redes sociais, um perfil “.psi” no Instagram. Algumas pessoas também gostam de usar o LinkedIn ou outras plataformas.

Mas antes de sair criando conta profissional em rede social temos uma dica: CALMA!

Diferente de um site que você cria e ele está pronto, as redes sociais exigem que você as alimente cotidianamente, e isso vai te demandar muito trabalho (se você for fazer algo bem feito). Então é preciso avaliar muito bem se, para você, vale a pena estar nas redes sociais.

Nesse assunto, a primeira coisa a se fazer é gastar umas boas horas pesquisando sobre marketing digital, marketing de conteúdo, marketing no Instagram, no Facebook, no LinkedIn, no Whatsapp Business ou onde mais você queira estar presente.

Termos como funil de vendas, persona, avatar, aquecer os leads, conversão, geração de valor, call to action, entre outros, vão começar a ficar familiares para você e, aí sim, você pensa se irá criar uma rede social e fará um PLANEJAMENTO para ela.

Existem muitos apps gratuitos que fazem com que você, mesmo que de forma amadora, consiga fazer posts, editar fotos, fazer vídeos, e ter uma aparência mais profissional, mais bacana. Mas ter uma rede social de qualidade dá muito trabalho e envolve muito estudo.

De início, você não poderá pagar alguém para fazer isso para você (o mundo ideal – se puder, pague!), então pesquise, estude, converse com amigos que são dessa área, assista essas “aulas online” gratuitas que muitos especialistas oferecem antes de te vender algum curso. Se for mesmo entrar nessa, daí vale até buscar cursos pagos para fazer algo bacana, bem feito e ter resultado.

ALERTA:
Além de estudar as resoluções do Conselho de Psicologia que falam sobre as questões éticas na publicização dos serviços de Psicologia, fique atenta para não reproduzir discursos patologizantes, psicologizantes e culpabilizantes nas redes sociais. É muito difícil elaborar conteúdo para o público em geral sem falar em “psicologuês”.

Lembre-se que, se você está oferecendo conteúdo para as pessoas, você está oferecendo um serviço de psicoeducação para seus seguidores, então faça isso de uma maneira ética, crítica e com qualidade.

Como conseguir pacientes?

COMO CONSEGUIR PACIENTES? 

Esta é a pergunta que eu mais recebi em quase 9 anos promovendo dezenas de atividades para milhares de estudantes e profissionais na Sala ABC! Afinal, esta é a grande “dor” das psicólogas, principalmente das que estão começando na Clínica. 

Os gurus do marketing ensinam que devemos conhecer bem nosso cliente e conhecer quais são as dores deles (os problemas para os quais poderemos vender a solução). Não à toa que toda hora somos atravessadas por propagandas de cursos e mentorias que ensinam a ter “agenda cheia em 3 meses“, “faturar 10k em 6 meses“, “como conseguir pacientes high-ticket“, etc. 

Todo mundo sabe que este é o grande desafio de quem começa na clínica ou de quem quer levar seu consultório para um outro patamar de retorno financeiro. E dai chegam as promessas, são “metodologias comprovadas”, uso de redes sociais, Google Ads, Meta Ads, comunidades, plataformas, etc, mas no fundo a promessa é a mesma: vou te ajudar a conseguir seus pacientes. E as psicólogas compram essas promessas, às vezes pagam bem caro, inclusive. 

Então, primeiro de tudo, cuidado com quem te promete este tipo de coisa, e não saia gastando seu dinheiro com isso. Lembre-se: não existe caminho fácil e nem rápido! 

Este “conseguir pacientes” eu tenho chamado de “construir sua rede de encaminhamentos“, um processo artesanal, que leva tempo e depende de uma série de variáveis que nem sempre são passíveis de controle e previsibilidade. 

Quando faço reflexões e orientações sobre esta questão, gosto de dizer que nosso desafio é transformar nossa rede de contatos – o famoso “network” – em uma rede de encaminhamentos. E existem diferentes caminhos para isso. 

Porém, antes de sair investindo tempo, energia e dinheiro nisso, tem uma pergunta fundamental na qual a resposta mudará tudo o que você deverá fazer depois: 

Quem é o paciente que eu quero ter? 

E a resposta a essa pergunta deve ser completa, tipo um episódio do Globo Repórter de sexta-feira a noite: quem são, o que fazem, onde vivem?

Não basta apenas saber qual faixa etária você quer atender, que é o recorte mais comum das psis pensarem. É preciso pensar em tipos de demandas, questões identitárias, classe social, território e uma série de características para que, primeiro vc entenda bem quem é o público que você deseja atrair para o seu consultório, e só depois começar a criar estratégias para ir até eles, ou ainda melhor, para eles virem até você! 

O digital é um caminho que chegou para ficar, ultimamente tenho visto psicólogas já consolidadas entrando nas redes também, mas vale lembrar que o digital é apenas um dos caminhos, e nem todo mundo se sente confortável com ele. 

Na Psicologia Clínica de consultório, pela característica dos processos serem com encontros semanais ou quinzenais, não precisamos de muito pacientes, 20 ou 30 pacientes já configuram uma agenda cheia, então ter uma rede de encaminhamento, ainda que pequena, mas eficiente, pode fazer você construir seu consultório em poucos meses. 

Tem algumas psis que tem perfil para ter aquele posicionamento mais “blogueirinha/ tiktoker” que a cartilha do marketing digital propõe, e algumas tem realmente bons resultados em transformar sua rede social em um espaço de encaminhamento de pacientes, mas arrisco dizer que 90% dos perfis profissionais na rede social não conseguem fazer isso. 

Ainda no digital, ter um site, um blog, um perfil “vitrine”, um Google Meu Negócio, um cadastro em algumas plataformas de busca por psis e até investir em tráfego no Google ou na Meta podem dar resultado, desde que você tenha conhecimentos básicos deste universo e saiba o que está fazendo (ou contrate alguém que saiba). 

Mas existe vida fora da Internet, e muitas possibilidades para construir sua rede de encaminhamentos fora dela também. 

Parcerias com psicólogas de outras abordagens ou que atendem outros públicos, parcerias com profissionais da saúde, parceria com projetos ou instituições, participar de comunidades, frequentar grupos de supervisão e de estudos, ir a eventos, palestras, congressos e tudo quanto é lugar onde as pessoas possam te conhecer como psicóloga são maneiras de investir na construção da sua rede de contatos e, portanto, na sua rede de encaminhamentos. 

Não acredito que exista a melhor estratégia, aquela que garanta resultados bons e rápidos. O resultado virá com as estratégias com as quais você se identifica e investe, com constância e dedicação por um período considerável, não será uma coisa de dias ou semanas. 

Construir um consultório sólido é construir uma rede de encaminhamentos capaz de, primeiro, construir uma boa agenda e, segundo, fazer a manutenção diante das variações de entrada e saída de pacientes. Inclusive, com o tempo, suas próprias pacientes e ex-pacientes vão se tornar sua rede de encaminhamentos. Quando isso acontecer, seu consultório estará quase que “rodando sozinho”. 

No entanto, este processo não é simples e nem rápido, envolve conhecimento, tempo e ação. Sua rede começa a ser construída ainda durante sua graduação, com suas professoras, supervisoras e colegas de turma e de curso. Ou seja, não é um processo que você só começa depois de ter o CRP na mão.

Bora estudar e construir sua rede! 

Forte abraço!
Rafa Dutra

Quem dá conta de tudo não dá conta de si mesmo

Bora estrear uma coluna de dicas aqui em nosso blog?!

Essa semana lançou o livro “Quem dá conta de tudo não dá conta de si mesmo: como o antiprodutivismo pode revolucionar nossos modos de vida, trabalho e afeto“, de Mariane Santana.

Mariane vem trazendo as discussões sobre antiprodutivismo em seu instagram (@marianecsantana) e acaba de lançar um livro para ampliar esta discussão. Em tempos de cansaço crônico e exaustão generalizada, é preciso parar e repensar a lógica produtivista com a qual temos organizado e orientado nossas escolhas e nosso modo de vida.


“Meu compromisso é com a vida, e esta não mora em um checklist”

A produtividade é a palavra-chave que define nosso estilo de vida. Quem somos, então, quando não estamos produzindo? Em uma sociedade cansada, marcada pela intensificação do trabalho e pela gestão permanente de si, o tempo livre e o descanso passam a ser vistos como luxo, mas deveriam ser considerados nossos por direito.

Em Quem dá conta de tudo não dá conta de si mesmo , Mariane Santana nos mostra que colocar limites na lógica do trabalho é um exercício revolucionário. Ela nos ensina que o antiprodutivismo – a recusa de viver para produzir – é a semente que nos permite nutrir outras formas de existência.

Com análises profundas sobre nossa sociedade, articulando relatos de uma rotina automática e reflexões de grandes pensadores, este livro nos mostra a urgência de um modo de vida que possa ser definido pelo ócio, em que o tempo deixa de ser associado ao capital para ser afirmado como experiência de vida. Porque viver é muito mais do que produzir.


Reflexões importantes, tanto para cada profissional da Psicologia repensar sobre seu trabalho e sua vida, quanto para ampliar e qualificar a escuta clínica para compreender mais profundamente as estruturas sociais que tem produzido tanto adoecimento nos últimos anos.

Pensar as condições concretas de vida e as escolhas possíveis diante deste cenário se afastando das leituras individualizantes e das fórmulas mágicas de autogestão como saída deste complexo fenômeno é essencial para compor uma escuta crítica diante de tanto sofrimento provocado pela lógica produtivista.

Bora prestigiar nossas autoras brasileiras!

Forte abraço!
Rafa Dutra

A repetição que não se repete

“A REPETIÇÃO QUE NÃO SE REPETE”

Existe uma pergunta que aparece na clínica e que tenho percebido com frequência logo na primeira sessão com um paciente. Apesar de ela ser feita na primeira sessão, ela não vem logo de cara, junto com as demais questões burocráticas como valores, datas e horários. Ela se descola dessa parte prática, caminha lenta, olhando desconfiada para trás por um corredor de silêncio até a porta da subjetividade, às vezes até com um tom de voz diferente e sai baixinha no exato momento em que o relógio transforma quarenta e nove minutos em cinquenta:

Você vai ter paciência de me ouvir falar sobre a mesma história repetidas vezes?

Não existe uma resposta prática para uma pergunta como essa. Não há um sim capaz de entregar ao paciente tudo que ele me confia ao deixar essa pergunta no ar antes de sair. Porque sim, nem sempre eles ficam ali paradinhos esperando uma resposta. Pode ser apenas um teaser do próximo ato que vai ser revelado quando estivermos juntos de novo, e de novo e de novo. A pergunta é muitas vezes, para nós mesmos e nem sempre um pedido de garantia.

Meses atrás estive no teatro para assistir uma peça chamada “Dois de Nós”, que narra a história de um casal maduro, com crises conjugais que se acumulam ao longo de anos de convivência, amor, desgaste, segredos, alegrias, medos e escolhas, raivas e mágoas. Em meio a uma discussão muito da acalorada, esbarram em um outro casal, de mesmo nome, que para o espanto dos quatro, são eles mesmos, no passado, ainda jovens e apaixonados.
A peça é um lindo encontro através da repetição do passado para o presente. Onde o casal mais maduro, só consegue compreender certas coisas ao olhar para eles mesmos, como se sentiam, como se imaginavam, como se relacionavam, como imaginavam o futuro. Não é spoiler para ninguém aqui que existem algumas decepções em relação as expectativas, mas eu não vou me alongar muito para não tirar a emoção da primeira vez para quem for vê-la.

Mas o mais interessante é que eu vou assistir ao espetáculo novamente hoje à noite. E eu estou extremamente empolgada com isso. Não tem problema eu já conhecer a história, eu quero ouvir de novo, saborear as falas e mais, o improviso que o teatro oferece (diferente do cinema) onde as palavras podem mudar, algo novo pode surgir e tudo pode ser visto e vivido de uma maneira completamente diferente por mim, pelo elenco, mesmo que eles estejam há mais de um ano em cartaz, viajando o Brasil com a peça. Não vai ser a mesma coisa.

Me dei conta enquanto pensava esse texto, que tenho o hábito da repetição. O espetáculo “O céu da língua”, monólogo maravilhoso escrito e encenado pelo ator Gregório Duvivier, vi três vezes. Gregório traz na etimologia das palavras humor, angústia, admiração, surpresa e mudanças e adaptações de sentido. O público se encanta com o quanto é importante essa troca com alguém, que desembaralha o emaranhado de letras que usamos repetidamente, diariamente, muitas vezes sem nem saber de onde vem. Mas veja, não estamos ali trocando com qualquer pessoa. Gregório estudou Letras. Ele claramente gosta de estar ali e acredita na capacidade da plateia em compreender suas analogias, piadas e texto às vezes até áspero, mas que provoca reflexão, que faz querer ver de novo, que faz querer levar tudo isso para casa.

E foi por isso que, logo na primeira vez, comprei o texto da peça. Mesmo tendo visto mais duas vezes, me pego relendo o jogo de palavras feito de forma tão sagaz e certeiro que me faz querer decorar aquilo tudo. Só que a cada vez que leio, uma parte diferente me toca. Não é o texto que muda, mas como eu me encontro, para onde está dirigido meu olhar, onde está minha emoção.

Quantas vezes ouvimos uma música até decorá-la? Quantos dias são necessários de repetição para se construir um hábito? Se temos tantas divergências entre as abordagens da psicologia, eu arrisco dizer que esse é sim o ponto de convergência. Freud escreveu “Repetir, recordar, elaborar”. O método ABA, sem faz sem repetição? A Terapia Comportamental e a Cognitivo Comportamental estão isentas? Eu acho que não.
Se hoje falamos tanto em algoritmo e redes sociais; em uma linguagem crua e superficial posso afirmar que ele nos vence pela repetição, nos convence de algo seja verdade ou não de tanto aparecer diante dos olhos na tela de um celular.

E funciona porque nós funcionamos da mesma forma e nos convencemos de algo que pode nos ajudar ou prejudicar de tanto repetir. Essa diferenciação do que nos é útil, do que nos faz bem, e que oferece autonomia para cada indivíduo só é possível se houver um espaço de se ouvir, quantas vezes forem necessárias, até que se faça sentido, que se perca sentido e seja possível criar um sentido novo.

Dito tudo isso, se você me pergunta se eu vou ter paciência de ouvir diversas vezes a mesma história? Posso afirmar: eu não vejo a hora!